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A educação que queremos

postado em 3 de ago de 2012 08:50 por Adilson Siqueira   [ atualizado em 2 de mai de 2016 07:01 por Assessoria Comunicação ]

A crise global é também uma crise de educação – assumida como educação ao longo da vida – de seu conteúdo e seu sentido, pois gradualmente deixou de conceber-se como um direito humano e se converteu em um meio privilegiado para satisfazer as necessidades dos mercados, demandantes de mão de obra para a produção e o consumo. Não somente se abandonou a formação de pessoas capazes de pensar os importantes problemas políticos, ambientais, econômicos e sociais de ordem global, como também a Educação vem sendo despojada de seu profundo conteúdo político e, particularmente, de seu potencial para formar cidadãos e cidadãs capazes de pensar uma ordem econômica e social diferente, de superar o complexo de profundas crises que vivemos.

Resulta fundamental repensar os fins e práticas da educação no contexto da disputa de sentidos, caracterizado pela subordinação majoritária das políticas públicas ao paradigma das necessidades humanas e, em sentido contrário, pela emergência deste movimento social, de paradigmas alternativos que buscam restituir o caráter de direito e de projetos éticos e políticos na prática educativa. Neste sentido, é urgente resgatar a noção de Educação como direito humano, em suas dimensões formais e informais, abrir o horizonte à democratização das sociedades para formar cidadanias críticas, capazes de vincular-se a movimentos que reclamem uma transformação à ordem social, visando a uma maior justiça social e ambiental, com a intenção de entender e discutir soluções aos problemas de escala planetária.

O desenvolvimento de uma “subjetividade” crítica é um aspecto central na construção de uma pedagogia cidadã na atual conjuntura. Trata-se de restabelecer um sentido emancipador dos processos de empoderamento, entendidos como o desenvolvimento de recursos da comunidade para fazer política, gerar conhecimentos, potenciar os saberes e aprendizagens que se produzem nas lutas democráticas, e que necessitam lideranças inclusivas, organizações participativas, alianças com organizações democráticas da sociedade civil e a permanente e necessária “ponderação radical-pragmática” (inédito-possível, diria Paulo Freire) nas definições de acordos, consensos e associatividade entre a diversidade de atores que participam da política.

Tudo isto implica um giro político e cognitivo, uma mudança paradigmática na maneira de entender a educação, uma abertura a novos pontos de vista sobre as finalidades sociais, como os do bem-viver, o dos Comuns, o da ética do cuidado, entre outros, sobre os quais se deve abrir um grande espaço de discussão e socialização na Rio+20 e mais além, afirmados no sentido de uma educação para uma mudança e a transformação pessoal e social.

Esses novos paradigmas e pontos de vista não somente devem ser mapas para mover-se nos novos contextos, mas também conteúdo para as finalidades que buscamos como movimento cidadão capaz de envolver aos distintos atores do processo educativo, como as trabalhadoras e trabalhadores de ensino, os estudantes, os pais e as mães de família, e mais amplamente a todas e todos os cidadãos que precisam e lutam por uma mudança profunda na educação, para gerar uma mudança radical na sociedade rumo a uma maior justiça social e ambiental. Tudo isso é consistente com a concepção libertadora da educação popular, que se alimenta de múltiplas experiências pedagógicas para formar outra cidadania.

A mudança paradigmática na educação – como condição para avançar rumo às sociedades sustentáveis, com justiça social e ambiental, onde a economia seja um meio para isso e não um fim em si mesma – deve supor uma mudança nos enfoques tecnicistas e economicistas das políticas educativas vigentes. É preciso reivindicar o direito a aprender “durante toda a vida”, consigna que não deve ser entendida como a expressão de um tipo de capacitação permanente para satisfazer as necessidades dos mercados e as demandas das velhas e novas indústrias.

Esta aproximação sobre a educação que queremos, parte de construir múltiplas “educações” em suas dimensões formal e informal, para desenvolver capacidades humanas, incluindo as capacidades cognitivas e de participação social, de conviver com outras na diversidade e na diferença, de cuidar e planificar a própria vida, de conviver entre seres humanos em harmonia com o meio ambiente.

Uma educação pertinente, relevante, transformadora, crítica, deve ter como fim máximo a promoção da dignidade humana e a justiça social e ambiental. A educação, direito humano promotor dos demais direitos, deve incluir crianças, jovens e pessoas adultas como sujeitos do direito, promover a interculturalidade, a igualdade, a equidade de gênero, o nexo entre cidadania e democracia, o cuidado e relação harmônica com a natureza, a eliminação de toda forma de discriminação, a promoção da justiça e a construção de uma cultura de paz e de resolução não violenta dos conflitos.

A educação que queremos, requer promover estrategicamente uma educação que contribua para uma redistribuição social dos conhecimentos e do poder (levando em conta o gênero, a raça-etnia, a idade, a orientação sexual), que potencialize o sentido de autonomia, solidariedade e diversidade que expressam os novos movimentos sociais. “Trata-se de promover uma educação crítica e transformadora que respeite os direitos humanos e os de toda a comunidade de vida a que pertence o ser humano, que promova especificamente o direito à participação cidadã nos espaços de tomada de decisões."

 

In http://www.ibase.br/pt/wp-content/uploads/2012/06/Outro-Futuro-%C3%A9-Poss%C3%ADvel_portugues_web.pdf

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